Arquivo mensal: junho 2012

Minha inútil antipatia

Um pedido de desculpas assim dessa forma… Desculpe você, mas não posso aceitar.

 

Simplesmente porque não há nada o que desculpar. A não ser a sua ausência.

 

O maior mistério em mim é que não existe mistério algum. Coloque os meus óculos e enxergue o que qualquer um pode ver.

 

E no entando você insiste. Insiste em dizer que sou aquilo que você ainda não sabe nomear. E isso te fascina.

 

Por favor, não pare. Especialmente quando estivermos sozinhos no centro do nosso mundo e o final de uma dança supostamente anunciar que tudo terminou. Para nós, não. A última nota indica que é hora de você me abraçar. Deixe que nos vejam e que não entendam.

 

Respondo o seu silêncio com o meu sorriso.

 

Seu amor e sua delicadeza são baseados na dor. Tudo bem. É que antes não nos conhecíamos…

 

Mateus Campos

Minha útil simpatia.

Meu romance é áspero.

Por isso, já peço desculpas antecipadas.

Meu amor, mais do que nunca, é baseado na dor. Mas não é culpa dele. Foi só o que ele conheceu.

Sei a razão das perguntas que você me faz e se pudesse escolher, não te responderia nada.

O silêncio é realmente muito útil, pois só ofende os atentos.

Enquanto isso, todo meu processo está naquilo que você ainda não viu.

A possibilidade é um monstro quando, finalmente, se abre à frente de alguém que acreditava não ter possibilidades.

Por isso, guarde qualquer vaidade sem freio na noite de uma dança que duvida ter existido e só então venha tomar comigo um café da manhã. A partir de então, estarei sempre pronta para lambuzar sua boca com verdades silenciosas que você achava que minha ternura  nunca seria capaz de perceber.

Porém, minha ternura é áspera.

Por isso, já peço desculpas antecipadas.

Minha delicadeza, mais do que nunca, é baseada na dor. Mas não é culpa dela. Foi só o que ela conheceu.

Paula Febbe

Crítica sobre o “Relato Inspirado por Orelhas”

Gostaria de compartilhar a opinião do crítico literário Anderson Borges Costa sobre meu livro de estreia, “Relato Inspirado por Orelhas”, lançado no ano passado. Fiquei feliz. 🙂

“Bela estreia na literatura! Narrado em primeira pessoa, o texto é todo subjetivo, internalizado – como uma esponja, que absorve a realidade exterior sugando-aprofundamente.

A prosa (poética) é cubista – fragmentada, com partes aparentemente soltas e desconexas. No entanto, ao avançar na narrativa, percebe-se que os cacos vão se juntando, os fragmentos se revelam, na verdade, uma metáfora das separações, dos divórcios, dos rompimentos, dos desencontros e das mortes que estraçalham a vida da narradora. Neste sentido, a orelha reforça a metáfora, pois é, aparentemente, um órgão solto, que, em seu íntimo, está sempre em busca de juntar (pelo sábio ato de ouvir) os cacos do corpo, ou seja, da vida (desintegrada).

O livro, já pelo título, é “metonimizado” na orelha. Por que será que o objeto livro Relato Inspirado por Orelhas não tem orelha? Foi proposital? Para mim, sugeriu uma violência, uma extirpação, que se reflete nas perdas da narradora. No entanto, embora o livro sugira algo não para ser lido, mas para ser ouvido (portanto destinado não a um leitor, mas a um ouvidor), há, espalhados por suas páginas, narizes, bocas, olhos e mãos. Todos os cinco sentidos estão representados neste caos de vida.

Na descrição seca e melancólica, a narração tem um tom filosófico que remete a um existencialismo um tanto niilista, como o de Clarice Lispector. Paula Febbe escreve sem clichês. Há, ao contrário, achados interessantes, como “fotossíntese mental” (página 78). O livro é um meio que fala sobre o fim, inclusive iniciando-se pela “Conclusão”. E a paciência da personagem Cristina é a virtude associada à loucura de um Van Gogh. Em Relato Inspirado por Orelhas, a paciência é uma “natureza morta”.

Em síntese, o livro é envolvente, sem deixar de causar estranhamento. O final deixa um gosto amargo no leitor, portanto, duradouro.”