Arquivo mensal: novembro 2010

A Gabí que conheci.

Gabí no palco do Bourbon Street

Antes de tudo, quero dizer que odeio “puxa-sacos” e afins. Nunca fui o tipo que acha que alguém é melhor porque é famoso. Aliás, até tenho uma grande repulsa por este culto às celebridades. Agora que deixei isto claro, posso seguir com o texto:

 – Mas ela canta? Foi essa a pergunta que mais ouvi, quando alguém ficava sabendo do show que Marília Gabriela faria no Bourbon Street. Minha resposta como profissional era “Sim, claro!”, enquanto minha resposta íntima era “Não sei”.

Como assessora de imprensa da casa, minha primeira tarefa foi escrever o release que divulgaria o show. Com este release, tive o primeiro contato com esta faceta da artista e com a artista em si, que me ligou quando terminou a leitura de aprovação do material.

– Oi…Paula?

– Sim!

-Aqui é a Marília Gabriela.

(silêncio)

– Ah…Oi, Marília.

– Oi! Olha! Gostei muito do release, viu? Só preciso que você inclua esta e esta informação, mas a abordagem é essa mesma. Ficou ótimo!

-Ah tá…obrigada

– De nada, querida. Beijo.

-Beijo.

Depois deste, vários telefonemas se seguiram pelo mês, e eu cheguei a encontrar Gabí em um jantar da produção do show no Bourbon Street. Ela sentada numa ponta da mesa, eu em outra. Nunca tivemos a chance de conversar muito, e a maior parte das vezes em que isto aconteceu, foi pelo telefone.

 No dia do show, pouco antes do “showtime” ser anunciado, decidi passar pelo camarim pra ver se estava tudo bem.

– Oi, Gabí. Posso entrar?

– Entra!

– Oi, Gabí.

– Tudo bom querida? Olha…Não repara na bagunça, mas é que eu tô relendo os textos aqui.

– Imagina! Tudo bem…

Com a mão dócil, fez um sinal para que eu dividisse o sofá com ela. E eu dividi.

Na rápida conversa que tivemos, encontrei no camarim uma Marília Gabriela vulnerável, apreensiva e linda…

Como a aluna aplicada que é, lia e relia todas as letras das canções que interpretaria, como se esperasse, através da disciplina, excluir qualquer possibilidade de algo não planejado, errado. As palavras que me disse, expunham apenas a preocupação com que tudo corresse bem. Com que o público gostasse do show. Marília estava humana. Sentada ao meu lado com toda a vontade do mundo de que tudo ficasse bem… Marília estava inteiramente ali.

E eu, do alto de minha quase nula experiência de palco, tive a cara de pau de dar um conselho à mulher com mais de décadas de uma sólida carreira:

-Marília…Quando subir lá, divirta-se!

Achei que com aquele conselho, qualquer um do nível profissional dela reviraria os olhos e se diria ocupada demais pra falar comigo para todo o sempre que restasse, mas Gabí me ouviu, sorriu e disse:

-Vou tentar!

Assim que subiu ao palco, ela brilhou. Exibiu desinibição, vibratos e calou a boca de todos que haviam comprado o ingresso, pois esperavam ter o sádico prazer de ver algum fracasso vindo de alguém de muito sucesso.

 Assim que entrei no camarim após o final do show, acho que ela não me reconheceu. Então eu disse:

-Dá um abraço, Gabí.

E ela me abraçou, enquanto me chamava de querida novamente.

Talvez ela não se lembre deste abraço nem se algum dia for ler este texto, mas eu nunca vou esquecê-lo. Aquele abraço foi até meio egoísta, pois não foi para ela, mas para mim. Algo como: Quando eu crescer, quero ser como você, viu? Tirando todos os “pré-conceitos” trazidos por revistas e emissoras de TV, ali estava uma das poucas mulheres brasileiras a quem devemos respeito, principalmente quando se é uma mulher. Marília Gabriela nunca foi apelativa. E quando se expôs foi por meio da arte, o que deveria ser considerado, no mínimo, admirável.

 Não deve ser fácil ser Marília Gabriela, Gabí como ser humano, mas ela parece ser uma mulher que transforma seus medos em algo inexistente. Medos que apenas podem ser considerados receios, pois são vencidos no momento em que ela entra em qualquer cena.

 Obrigada, Gabí. Mesmo! Você fez com que eu lembrasse o tipo de mulher que pretendo ser.

Beijos,

Paula Febbe