Arquivo mensal: novembro 2009

Yael Naim e o que ela me ensinou.

Yael Naim

Acompanhei a vinda da cantora Yael Naim ao Brasil e decidi dividir minha experiência com vocês.

Como assessora de imprensa do Bourbon Street, minha primeira responsabilidade em relação aos shows que ela faria no Brasil foi, claro, escrever o release. Óbvio que exaltei o fato da música mais conhecida da artista, “New Soul”, ter servido de trilha sonora para o comercial do MacBook Air.

Então, conseguimos entrevistas, divulgação e foi tudo lindo.

Quando Yael chegou, tive a responsabilidade de levá-la às entrevistas que deu, e então presenciei todos os shows que fez (inclusive o primeiro, improvisado e acústico, durante o apagão) e foi aí que minha casa caiu.

Yael é exatamente tudo o que uma verdadeira musicista deve ser. É uma pessoa que depois de alguns tropeços em vida, criou uma consciência real de quem é, do que quer fazer e do que é capaz.

Por isso a calma, por isso a verdade.

No palco do Sesc Pinheiros, disse ter sido pretensiosa alguns anos atrás (o que ironicamente e instantaneamente a transformou em alguém totalmente sem pretensão). Contou a história de como achava que sua alma era antiga, mas depois que a vida real a alcançou, começou a acreditar que talvez esta fosse sua primeira vez na Terra. Assim foi criada sua música mais conhecida, “New Soul”.

Yael é engraçada. Se não tivesse um enorme talento pra música, acho que seria comediante ou atriz. Mas as músicas dela são de uma beleza incontestável e de uma honestidade que eu não via há muito tempo.

A vinda de Yael ao Brasil afirmou pra mim que ainda há delicadeza, doçura, poesia e realidade na música. Ela e o namorado, David Donatien – também percussionista da banda – passaram dois anos e meio trancados na casa de Yael, gravando o disco. Quando perguntamos o que ela mais gosta nessa vida, a resposta é simples: a música. Pois é. Para ela, o propósito ainda se faz presente. E como isso é raro hoje em dia!

Assim que o último show em São Paulo terminou, lembro de estar na cochia e ver a banda toda sair abraçada aos pulinhos em direção ao camarim.

Uma das cenas mais lindas que já vi na vida…

Então percebi que Yael  é o contrário de “cantora do MacBook Air”. Ela é uma artista!

Pode deixar que da próxima vez mudo o release, gente. Não vai ter nem sombra de Steve Jobs pra contar história.

O MacBook Air pode até ter um milhão de gigas, mas definitivamente não é o suficiente para suportar a grandeza da Yael Naim.

P.S.: OK? E o que Yael Naim faz em um blog sobre rock? Ah gente! Ela começou a tocar por causa dos Beatles!!

Tá bom, né?

😉

Paula Febbe

Cafonas e malditos

faith

Faith No More

Fui ao festival Maquinária que aconteceu ontem em São Paulo.

Na plateia, meninos de cabelos compridos, bermudas, preto e muitas tatuagens à mostra não deixavam negar que aquele era um evento de rock. Pela grande quantidade de camisetas com o nome da banda, era óbvio também que a esmagadora maioria tinha ido ver a última atração da noite: Faith no More.

Se você olhar algum vídeo dos caras no começo da carreira, vai trombar com um lead singer de bermudas, tênis, camisetas coloridas e cabelos compridos. Já se assistir ao videoclipe de easy, vai encontrar o mesmo tipo de figurino, só que desta vez, Mike estará com os cabelos curtos.

Hoje em dia, praticamente vinte anos depois do início de sua carreira, Mike Patton sobe ao palco com uma bengala (e com um enorme guarda chuva no caso do show em São Paulo), terno vermelho (com uma flor na lapela), cinto branco e óculos escuros. O cabelo é cuidadosamente puxado para trás com um gel que não deixa o couro cabeludo respirar por nenhum segundo. Praticamente um estereótipo de “amante latino” ou um mafioso italiano de muito mau gosto.

A banda começou o show com Reunited. Quem chegasse desavisado era bem capaz de achar que entrava em uma festa de formatura brega no final dos anos 70.

Acontece que todo este início de show era uma grande encenação. E o mais curioso: O público sabia disso! Todos (OK! Quase todos) que estavam lá entendiam a ironia da banda e talvez tenham isso como um dos grandes motivos por ter desembolsado até quatrocentos e cinquenta reais no ingresso. O Faith no More é praticamente sinônimo de pegar músicas cafonas e transformá-las em algo muito interessante.

Quando chegou a hora de Epic, a verdadeira personalidade da banda já tinha aparecido há muito tempo e o sarcasmo havia ficado ainda mais exposto.

Com todo aquele cenário, minha maior contestação foi: O que faz com que alguns artistas sejam compreendidos e outros não? Mike Patton nunca chegou a público ou fez uma coletiva de imprensa para explicar que suas roupas cafonas eram apenas uma ironia.

Mas enquanto Mike Pattons são compreendidos sem precisar abrir a boca, outros artistas reclamam cada vez mais do quanto são mal interpretados. Tudo o que dizem parece ser infinitamente distorcido por jornalistas e afins, sem dó nem piedade.

Talvez o histórico de Patton contribua para o entendimento do público. Inclusive, os trejeitos continuam os mesmos. Se você conseguir prestar bastante atenção, verá o mesmo menino de vinte e poucos anos preso no corpo daquele homem na casa dos quarenta. A diferença é que com vinte e poucos anos você pode não ser levado muito a sério, mas o tempo se encarrega de separar os músicos que tinham o rock apenas como uma fase dos que são realmente talentosos e levam a música para toda a vida. Tenha certeza de que Patton está na melhor categoria.

Pouquíssimas pessoas sabem da vida íntima do vocalista do Faith no More, mas muitos conhecem seus inúmeros projetos musicais.

O show foi ótimo e em nenhum momento deixou nada a desejar. Profissionalismo foi a palavra chave!

A verdade é que expondo apenas o trabalho, tudo o que o artista faz é compreendido como arte, já que não o conhecemos fora dela. Se um artista busca seriedade, mesmo que na ironia, é bem provável que tenha que se resguardar para ser compreendido.

Parece que cada vez menos representantes do mainstream entendem isso, mas ser artista e ser celebridade exigem duas posturas completamente diferentes.

“You want it all but you can´t have it”. E o Faith no More já sabia disso há tanto tempo!

Paula Febbe