Arquivo mensal: junho 2009

Videoclipes

O post a seguir foi ao ar na minha coluna “Rock Talk” no site “De Garagem” (www.degaragem.com) dia 27/06/09.

“A arte no videoclipe”

Mark Romanek

Mark Romanek

Vamos falar de videoclipes, então…

É muito difícil conseguirmos pensar em um videoclipe que seja a personificação de tudo aquilo que poderíamos considerar “perfeito” na junção de imagens e música.

Claro que um clipe não precisa ser esteticamente impecável para ser interessante. Se assistirmos a “Here it goes again” do OK Go, por exemplo, vemos técnica nenhuma em uma montagem inusitada extremamente atraente. A banda faz uma coreografia impecável em esteiras de academia, e consegue vender, quase que sem recurso nenhum, a música, que é a proposta, no final das contas.

Agora, se pensarmos em clipes esteticamente inovadores, com uma grande produção e que tragam algo novo às telas, há poucos que podem ser considerados verdadeiras expressões artísticas.

Neste quesito, um dos maiores diretores, sem dúvida, é Mark Romanek Além de já ter feito trabalhos inacreditáveis para artistas pop como Madonna e Macy Gray, Mark é um dos poucos que consegue trazer a arte para a tela quando o assunto é rock n´roll.

Mark, fez o clipe, que eu, pessoalmente, considero o melhor de todos os tempos: “The Perfect Drug” do Nine Inch Nails.

Não estou falando de preferências musicais, até porque nem gosto tanto dessa música, mas acho lindo o resultado final da incorporação de referências das artes plásticas e do som.

Em “The Perfect Drug”, Mark Romanek juntou idéias de uma estética sombria, inspirada em Edward Gorey, e transformou a negação de Trent Reznor em fazer uma “personagem”, em um dos trabalhos mais bonitos na história do videoclipe.

Destaque para a metade do clipe, quando Trent toma uma taça de absinto.

The Perfect Drug

http://www.youtube.com/watch?v=l0s5UOVsMDg

Além disso, Romanek foi responsável por trazer a arte moderna pela primeira vez ao videoclipe. “Can´t Stop” do Red Hot Chilli Peppers foi dirigido por ele e conseguiu criar, juntando dois universos que pareciam tão distantes, uma atmosfera que é a cara da banda!

Red_Hot_Chili_Peppers_-_Can't_Stop_

http://www.youtube.com/watch?v=YXOA_Lg_4pk

Mark também criou um dos mais aclamados videoclipes da história. A versão de Johnny Cash para a música “Hurt” do Nine Inch Nails. Aqui, Romanek conseguiu sintetizar em poucos minutos e muita poesia, toda a vida e dor de uma das maiores lendas do country/rock.

johnny_cash-hurt

http://www.youtube.com/watch?v=SmVAWKfJ4Go&feature=related

Se algum dia na minha vida, eu conseguisse fazer pelo menos um clipe tão bom quanto algum que ele tenha feito, minha missão na Terra estaria completa.

Mas Mark não fez só um, fez vários, e felizmente deve ter muito mais coisa boa por vir.

Que bom que o rock não tem apenas o talento de seus músicos!

Que bom que o rock tem Mark Romanek!

Paula Febbe

Bonitos

O post a seguir foi ao ar na minha coluna “Rock Talk” no site “De Garagem” (www.degaragem.com) dia 20/06/09.

“Bonitos”

kings-of-leon2

Tenho ouvido muito o último disco do Kings of Leon, “Only by the night” há algum tempo e devo confessar que não me canso dele. Gosto da sonoridade. Acho as letras atrativas e, para mim, a banda amadureceu…

Pois é! Aí vem a razão da desaprovação de vários amigos entendidos no assunto música / rock n´roll, já que para uma graaaande maioria:

Não – se – pode – aprovar – bandas – que – se – vendem!

 Ok! Antes de entrar no mérito do significado de “se vender”, vamos usar o Kings of Leon como exemplo e conhecer um pouco da trajetória deles…

 Caleb, Nathan e Jared Followill são irmãos. Junto com seu primo, Matthew, formaram o Kings of Leon. Cresceram passeando de carro pelo sul dos E.U.A. com o pai, um pastor. Não tinham uma casa. Viviam na estrada e dormiam em igrejas, hotéis e até mesmo no carro. Naquela época, os garotos da família Followill eram proibidos de ouvir rock ou assistir TV, mas em dez anos muito mudou: O pai deixou a igreja e se divorciou da mãe dos meninos. Então, eles começaram a ouvir música, formaram uma banda em 2000 e em 2002, já tinham conquistado o interesse de nove gravadoras. O primeiro EP foi lançado em 2003 e em cinco anos abriram shows para U2, Bob Dylan e Pearl Jam (que, aliás, é uma das bandas preferidas deles).

 Há pouco tempo atrás, enquanto a Europa lotava seus shows, os pais dos meninos tinham dificuldade em acreditar que eles fizessem sucesso, afinal ninguém os conhecia nos E.U.A.!

Isso mesmo! Eles eram extremamente famosos na Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, bastante conhecidos no Brasil e desconhecidos por americanos que não faziam parte da redação da Rolling Stone.

 Kings of Leon começou como uma banda de rock alternativo que fazia um som extremamente interessante, meio vintage, e trazia músicos que pareciam ter saído diretamente dos anos 70. A música, óbvio, sempre foi a preocupação número um na vida deles (até porque com um passado desses, era muito difícil que tivessem interessados em usar roupas da moda e cortes de cabelo descolados). Só que havia um problema em tudo isso: Eles eram bonitos.

 Nos primeiros discos, o Kings of Leon, se escondia em pêlos faciais e cabelos longos que teimavam em cobrir seus rostos. Eram caipiras que faziam um rock n´roll sujo e bêbado.

 Com “Only by the night”, tudo mudou! Eles se barbearam, alguns cortaram os cabelos e o que era plano geral (como no clipe de Molly´s Chambers) acabou virando close–up (como em Use Somebody).

Os vídeos da banda trouxeram um vocalista teatral, um baterista sem camisa e garotos lindos que poderiam estar em ensaios de moda de qualquer Vogue do mundo.

Os meninos do Tennessee, então, foram capa da Rolling Stone americana e atração do MTV Movie Awards 2009…Finalmente!

 Com o sucesso na terra natal, veio o rótulo de “vendidos”, a ira de fãs antigos e a admiração de meninas que provavelmente passariam reto por cada um deles se os encontrassem na rua em 2003.

 O “mainstream” do rock americano é apaixonado por bonitos. Como começo de tudo, podemos citar Elvis Presley. Ao longo dos anos e da evolução do rock, podemos pensar no Kiss, que fez um tremendo sucesso enquanto pintava seus rostos para o grande público e teve que lutar muito para continuar no topo, assim que decidiu se mostrar de verdade.

Quando pensamos em bandas americanas, é difícil lembrar de alguma que não tenha pelo menos um músico bonitão.

O Nirvana, por exemplo, era esteticamente estranhíssimo no palco. Krist era alto demais, Dave Grohl (que hoje é bonito) era magrelo, mas havia Kurt para compensar. Já o Mudhoney, pai do movimento grunge, que carregava apenas membros esteticamente feios, nunca chegou perto de tocar nas rádios.

 Se o “mainstream” americano só aceita o rock feito por bonitos, devemos agradecer ainda mais por países como Inglaterra e Austrália. O mundo seria péssimo sem AC/DC, Led Zeppelin e Rolling Stones.

 Aí vem a pergunta: O Kings of Leon se vendeu?

 Realmente acho que eles não têm culpa. Os garotos humildes de Nashville, provavelmente devem usar as roupas que ganham, fazer nos clipes o que diretores pedem e tocar uma música que mudou muito em pouco tempo pelo simples fato de terem tido muita informação nos últimos anos.

Talvez eles estejam se encontrando, talvez não tenham idéia de onde estão se metendo.

 Acredito que o figurino de anos 70 usado em 2003 pelos meninos era a época em que eles honestamente se encontravam. Haviam acabado de descobrir o rock n´roll e começaram, naquela época, a entender o que era uma banda de rock.

 Talvez, quando perceberem o que significa onde estão, tentem usar novas barbas compridas para camuflar o inevitável: Virar Jim Morrison, Kurt Cobain, Shannon Hoon e tantos outros grandes músicos que tiveram sua arte ignorada pra enfeitar capas de cadernos e quartos de adolescentes.

Jim Morrison, inclusive, tentou a mesma façanha de uma longa barba para forçar que prestassem atenção no que importava: sua música.

 De qualquer maneira, acho que os roqueiros do mundo todo deveriam agradecer o Kings of Leon. É maravilhoso ver apresentações em premiações da MTV que tragam simplesmente quatro caras tocando um rock n´roll que começou de uma maneira honesta. Quanto menos explosões, bundas expostas e rappers vazios falando sobre como é bom ter dinheiro e mulheres, melhor.

 Minha admiração por eles é grande.

Assisti ao show que fizeram em São Paulo no ano de 2005, quando abriram para o Strokes e devo dizer que os meninos foram geniais. Gostaria muito de ver um show deles hoje para julgar se o Kings of Leon é uma banda de “Sansãos” que teve o talento perdido com o cabelo. Honestamente, duvido muito.

Paula Febbe

Colunista “De Garagem”

Oi, gente.

Estou aqui (muito feliz) para dizer que agora também sou colunista do Podcast “De Garagem”. O nome da minha coluna é “Rock Talk” e o site é www.degaragem.com

Todos os sábados postarei um texto novinho em folha, começando hoje. O primeiro fala sobre o “Kings of Leon” e já está no ar.

Agradeço Uriel (dono do site) pelo convite.

Longa vida ao rock n´roll.

Beijos,

Paula Febbe

Qual o novo 27?

Fiz 26 anos há pouquíssimo tempo e tenho pensado muito sobre os grandes gênios da música que morreram aos 27.

Kurt Cobain,  Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison…

O engraçado é que há algum tempo atrás eu os via como adultos que viviam uma realidade muito distante da minha, até por causa da idade. Com o passar do tempo, ao invés de entender melhor tudo o que aconteceu com cada um deles, essa realidade começou a parecer ainda mais distante!

O “27” deles simplesmente não se encaixa no que é o “27” de hoje.

Parecem mais velhos do que eu, mais velhos do que meus amigos, mais velhos do que pais, mães, mais velhos até do que muitos velhos!

A sensação que paira é que estes gênios viveram e morreram em uma idade inexistente. Numa idade em que sempre serão mais velhos do que a gente, mas jovens o suficiente para retratar vitalidade, beleza e  força, todas grandes características da juventude.

E hoje? O que está acontecendo com os jovens adultos de hoje em dia?  Onde estão os gênios da nossa geração?  Que idade, hoje em dia, corresponde ao “27”  de gerações anteriores?

A maioria parece bem mais preocupada com a aparência de seus atos, amores, textos, citações e o que chamam de “loucuras”, que na verdade acaba se tornando a vontade vazia de ser alguma coisa diferente. Acontece que na maioria das vezes essa “coisa diferente” falha e estas pessoas acabam se tornando uma cópia mal feita de uma colcha de retalhos de ídolos mal compreendidos.

Se hoje estamos nos tornando cada vez mais vazios, quem serão os ídolos da próxima geração? O que acontecerá quando os jovens de “20 e poucos anos” de hoje tiverem  “40 e alguns anos” ?

Quero acreditar que o resgate de um passado ainda mais distante será inevitável. Nossos filhos ouvirão Nirvana, Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Doors…

Podemos até criar novos gênios e colocar o “27” de volta ao lugar onde ele pertence. Não nas mentes suicidas de alguns de nossos gênios, mas em cada coisa feita por uma realidade real.

O que aconteceu? 

Nossos “Woodstocks” fracassaram totalmente; nosso “Rock in Rio” é feito em Lisboa; nossos festivais de rock incluem bandas pop e nossas bandas de rock atuais são construídas pela Disney e usam anéis de uma virgindade mentirosa;

E a verdade era algo tão bonito…

Que o sofrimento seja sofrimento!

Que a alegria seja alegria!

Que a raiva seja raiva!

Que o amor seja amor!

Chega de viver uma vida de plástico com seres humanos que dão inveja a Barbies e Kens.

“Como nossos pais” … Realmente espero que tenhamos essa sorte! 

Paula Febbe

Queria afeto, mas só consegui Doritos

O que fazer durante um fim de tarde quando toda sua felicidade se resume a um pacotinho de carboidratos?

Nada. Nem ao menos se importar…

Paula Febbe