Pratos de Visita

Afinidade não se explica.

Como conseguir colocar em palavras a persistência de convivências que poderiam ter sido tão facilmente esquecidas com o acúmulo de horas, dias e anos, mas que sobrevivem a tudo sem absolutamente nenhum motivo aparente?

Por algumas vezes, nem a própria afinidade é tão visível assim. Você a sente, mas não consegue enxergá-la. As diferenças são muito grandes! Até constantemente se lembra de que não há motivo racional nenhum para estar ali. Mas você definitivamente está. Ah, e como está! E dali você não sai. Dali ninguém te tira!

“Because something is happening here, but you don´t know what it is. Do you, Mr. Jones?“.

Ainda assim, é preciso ser muito sábio e cuidadoso, pois as pessoas se contestam o tempo todo.

Tão acostumadas com a falta de beleza, com a vulgaridade nas relações, se mostram tão desconfiadas que reduzem si mesmas a meras sacanagens em potencial. Mas não, não é tudo uma grande e incalculável diversão!

Acontece que nem toda atenção que venha sem avisar é displicente e esquecível.

Nem todo desejo almeja apenas colocar o outro num pódio de possíveis prazeres ou conquistas.

Às vezes, as tais “sacanagens” sem verdade saem caro demais pra falta de sucesso em conseguir preencher a cama alheia.

Mas no final das contas, as “ligações inexplicáveis” existem e fazem parte do ciclo e do que é belo na vida.

Pelo menos uma vez enquanto vivermos, ela trará alguém que se tornará nosso retrovisor de vontades em um carro roubado e sem seguro.

Um amuleto invisível.

Nossa teimosia delicada.

Solidariedade afetiva.

Imaginação plena.

Continuidade e descontinuidade.

Nossa mais nobre delicadeza.

Alguém que motivará pratos de visita postos indefinidamente à mesa, prontos para uma nova refeição, aconteça ela um dia, vinte anos ou nunca mais após o último encontro.

A vida o faz, para que não esqueçamos de nossas limitações, para que paremos de acreditar que podemos ter tudo e, ao mesmo tempo – ainda que com um milhão de “nãos” – construamos uma ingênua, praticamente infantil esperança. Talvez a vida o faça até para nos lembrar que aquele sorriso que aparece sem querer no canto da boca em um dia difícil é algo bem quietinho e exclusivamente nosso. Nossa ternura em forma de segredo que ninguém tem o direito de julgar.

As “ligações” acontecem de maneira misteriosa enquanto dormimos, nos dirigimos ao trabalho ou até mesmo enquanto lemos a frase de um texto que nada tem a ver com este assunto. Acontecem enquanto somos, pois elas simplesmente também só são, sem culpa alguma, ainda quando não queremos. Pois no ser humano existe o bem, o mal, e aquilo que é tão honesto que acaba sendo maior que estes dois e, por isso, se encaixa em ambos e em nenhum.

Todos nós podemos escolher aonde ir e o que fazer. É sábio pesar as consequências de tudo e, às vezes, é mais prudente decidir que o melhor é não sair do caminho já conquistado. Porém, sempre existirá a cabeça no travesseiro e a bonita curiosidade daquilo que não temos como saber. Haverá sempre a eterna discussão que silenciosamente grita dentro da gente e nos divide entre aquilo que podemos e o que não podemos controlar. E tudo bem…

Ainda há beleza em rir de nós mesmos, calar a boca para sempre e tentar deixar ir embora o que nunca foi nosso, mesmo que isso tenha que acontecer com muito esforço todo café da manhã, todo almoço, toda noite… todo santo dia.

Paula Febbe

11 thoughts on “Pratos de Visita

  1. Nada como anos de distância para provar algumas proximidades.

    Bjo!!

  2. FRANK MORA disse:

    “Todos nós podemos escolher aonde ir e o que fazer. É sábio pesar as consequências de tudo e, às vezes, é mais prudente decidir que o melhor é não sair do caminho já conquistado. Porém, sempre existirá a cabeça no travesseiro e a bonita curiosidade daquilo que não temos como saber. Haverá sempre a eterna discussão que silenciosamente grita dentro da gente e nos divide entre aquilo que podemos e o que não podemos controlar. E tudo bem…”

    Lindissimo, Paula.

    Frank Mora

  3. Ainda bem que o inexplicável é útil para inspirar textos como esses, Paulinha!

  4. JULIANA ASSIS PÜTNAR disse:

    LINDO, EMOCIONANTE, OBRIGADA!
    JU (WISDOM)

  5. Kelly Pimenta disse:

    Adoreeeeeeeei! Como tudo q. vc escreve!
    E que venham muitos livros! :)

  6. Renata Franco disse:

    “É sábio pesar as consequências de tudo e, às vezes, é mais prudente decidir que o melhor é não sair do caminho já conquistado. Porém, sempre existirá a cabeça no travesseiro e a bonita curiosidade daquilo que não temos como saber”… E é isso! Parbens querida!!!!! Talento puro! :)

  7. “As “ligações” acontecem de maneira misteriosa enquanto dormimos, nos dirigimos ao trabalho ou até mesmo enquanto lemos a frase de um texto que nada tem a ver com este assunto. Acontecem enquanto somos, pois elas simplesmente também só são, sem culpa alguma, ainda quando não queremos. Pois no ser humano existe o bem, o mal, e aquilo que é tão honesto que acaba sendo maior que estes dois e, por isso, se encaixa em ambos e em nenhum.”
    Sensacional,Maravilhoso Paula.Parabéns.Curto demais os textos que você escreve.Sucesso pra você sempre!!!

  8. Filipe disse:

    Lindo de verdade!
    Eu achei que a foto fosse aquela pintura do Edward Hopper, Nighthawks http://www.artchive.com/artchive/H/hopper/nighthwk.jpg.html
    Parece, só que essa pintura me lembra meu pai. Se daqui um tempo me lembrar também do seu texto, seria o melhor elogio do mundo…

  9. paulafebbe disse:

    Obrigada, gente! Obrigada mesmo! Foi um texto sincero. :)
    Filipe: Essa pintura também é de Edward Hopper. “Nighthawks” era meu quadro preferido dele…até achar este.
    Beijos a todos !

  10. Pedroca disse:

    Uia, dimais, Pablita! Certamente vou acabar de escrever estas bobeiras aqui e ler denovo.

    Quer entender as “ligações inexplicáveis”? Mude para a Claro!

    BÊjo.

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